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: Artes e Espetáculos

Mais um sucesso e uma chuva de farpas


Os atabaques soaram, os planetas se posicionaram, os bispos se ajoelharam, os monges atingiram o estado de nirvana e Paulo Coelho, sentado em uma pedra na fronteira da França com a Espanha de olho no laptop sobre o colo, exorcizou seus últimos demônios. Ao colocar ponto final na página 318 de seu 190 livro batizado "O Zahir", Coelho acertou a jugular dos críticos, frustrou camelôs iranianos e derrubou as últimas fronteiras para se tornar o brasileiro mais lido no mundo.

 A crítica que sempre o fustigou aprendeu que Paulo Coelho vende, além de livros, revistas. Três publicações semanais, "Veja", "Isto É" e "Época", estampam em suas capas o cavanhaque branco do escritor e comemoraram sua volta em deslumbradas matérias que, somadas, chegam a 25 páginas. Nunca um autor monopolizou a imprensa em uma mesma semana com tamanha ferocidade. Sobre o conteúdo de "O Zahir", nenhuma linha desabonadora.

Os vendedores de livros falsificados do Irã foram driblados por uma pequena demonstração de agilidade que leva a entender porque Paulo Coelho está onde está. Ao descobrir que as obras que não são lançadas em primeira mão naquele país, Coelho liberou seu livro em Teerã 48 horas antes do resto do mundo. Às prateleiras brasileiras ele chegou na terça-feira passada e, entre abril e dezembro, estará traduzido em 42 idiomas e sendo lido em 83 países.

"O Zahir" é um romance com vontade de pular a cerca para virar biografia. As histórias de um escritor angustiado que passa a fazer sucesso depois de percorrer o Caminho de Compostela, que curtiu Beatles na adolescência, que escreveu letras de música para um cantor (Coelho o fez para Raul Seixas nos anos 70) e que é amaldiçoado pelos críticos sempre são a mais pura realidade. Mas as passagens sobre a mulher deste escritor, Esther, que desaparece supostamente com um amante do Casaquistão e sobre outras traições conjugais são pulgas atrás da orelha do leitor que Paulo Coelho, depois de colocar, faz questão de esclarecer: "Tudo ficção." "O Zahir", nome de um conto de Jorge Luis Borges, é palavra árabe que significa "idéia fixa.



Paulo Coelho não se importa em mostrar maturidade com o uso de figuras de linguagem que poderiam enriquecer seu texto, em aventurar-se nas frases mais longas, nos adjetivos mais criativos. Não se preocupa em prender o leitor pela forma e nem conquistar o crítico pelo conteúdo. Faz, sentado sobre a pilha de 65 milhões de livros que vendeu, o que sabe que o leitor gosta: ler uma história como quem olha no espelho. O livro se tempera ainda do polêmico condimento que mistura história com estória, consagrado pelo "Código Da Vinci", de Dan Brown.

O prazer da lavação da alma de Paulo Coelho tem seu auge quando o alvo são os críticos. Ao lançar o livro "Tempo de Rasgar, Tempo de Costurar", o personagem diz: "Os suplementos literários, que nunca foram gentis comigo, desta vez redobraram o ataque." As críticas a ele são pesadas. "...frases curtas, estilo superficial" e "...o autor descobriu o segredo do sucesso - marketing". O personagem ironiza: "Como sempre a contecia, a crítica negativa divulgou ainda mais o meu trabalho..."

A segurança de Paulo Coelho com relação a seu estilo, ou não-estilo, o leva a escorregar onde não pode. Seu gosto pelas vírgulas não justifica o deslize de separar sujeito de verbo em frases como "o que mais me agrada no livro, é que você não culpa em momento algum sua ex-mulher", na página 70. Se chegar às lojas assim, a crítica continuará sendo a pedra no caminho de Compostela.

o poder dos números 8 milhões de exemplares é a tiragem mundial inicial de "O Zahir", em 36 línguas e 60 países. 320 mil exemplares é a quantidade da primeira edição brasileira. 120 milhões de reais é a estimativa da fortuna do escritor. 65 milhões de livros já foram vendidos por Paulo Coelho na carreira, traduzidos para 56 idiomas em mais de 150 países. 40 milhões de reais a cada ano, aproximadamente, é o que fatura o escritor.


Saiba Mais

Difícil começo >>Paulo Coelho nasceu em 1947, na cidade do Rio de Janeiro. Antes de ser escritor, trabalhou como diretor e ator de teatro, compositor e jornalista. Seus trabalhos como letrista foram usados por cantoras como Elis Regina e Rita Lee. Mas sua parceria mais conhecida se daria nos anos 70, quando compôs ao lado de Raul Seixas. Foi quando nasceram sucessos como "Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás", "Gita", "Al Capone", entre outras 60 composições. >>O primeiro livro de Coelho foi editado por ele mesmo em 1982. "Arquivos do Inferno" foi um fracasso editorial. Em 1985, participou do livro "O Manual Prático do Vampirismo", que mais tarde mandou recolher, por considerar ruim. >>A peregrinação pelo Caminho de Santiago foi feita em 1986. A experiência seria tema do livro "O Diário de Um Mago", lançado em 1987. O ano seguinte, 1988, seria de virada. "O Alquimista", que teve uma vendagem lenta no início e que provocou a desistên cia de seu primeiro editor, se transformou no livro brasileiro mais vendido em todos os tempos. >>Seus outros livros famosos são "Brida" (1990), "As Valkírias" (1992) e "Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei" (1994), "Maktub" (1994), "O Monte Cinco" (1996), "O Manual do Guerreiro da Luz" (1997), "Veronika Decide Morrer" (1998), "O Demônio e a Srta. Prym" (2000), a coletânea de contos tradicionais em "Histórias para Pais, Filhos e Netos" (2001) e "Onze Minutos" (2003). >>Entre seus principais prêmios estão Grand Prix Litteraire Elle" (França), Knight of Arts and Letters" (França), Flaiano International Award" (Italia). Comendador de Ordem do Rio Branco" (Brasil).

 

 
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